
mtsrock@hotmail.com

Saí daqui. Estou aqui.
Minina às 02h34
*
Minha memória é jurássica. Cada palavra será e foi registrada na minha cachola, com direito a todas as cores da emoção. Lembro até do namorado da minha mãe, que ia lá em casa, dormia lá em casa na cama da minha mãe, de onde ela, cedo, me tirou para que eu criasse um espírito mais independente. Eu tinha uns três ou quatro anos. Lembro do ônibus de madeira idiota que ele um dia me trouxe. Ridículo. Por acaso não sabia, que desde que meninos são meninos e meninas são meninas, brincar de automobilista não é para meninas? E que na década de noventa, a menina que não tinha uma boneca Barbie estava fadada à decadência na reprodução de seu círculo social? Será q ele não sabia que eu era uma menina? Será que ele queria, e, mais que isso, reprimia o desejo de que eu fosse um menino?
Mas enfim, ele não era meu pai; aquele pai que contribui com a sementinha ruidosa. Meu pai da sementinha foi outra história ainda mais maluca que minha mãe inventou de ler. Fudeu-se, tendo, então, uma vida para orientar nesse caos total em que nos contentamos em sobreviver.
Mas estes foram os primeiros homens da minha vida. Que homem, hoje, exatamente, ocupa o lugar ocupado por tantos outros? Me pego surpresa em não saber. Os últimos... o de agora, mais que já: espera e eu também. Isso só prova que a matéria se alonga mais que o previsto e vejo todos em todos. Esbravejo com fantasmas. Vultos que me perseguem e me fazem abrir as pernas, galopar freneticamente entre os estreitos vãos da minha consciência de mulher e o que penso como existência humana, sem especificações de gênero.
Talvez eu quisesse ser homem. Talvez eu quisesse ser hermafrodita. Talvez eu quisesse ser anã, moçambicana, moçambicano, acrobata, contorcionista. Mas nenhuma destas opções resolveriam meu problema, nenhuma delas me traria as respostas. Que merda é essa de pai? O que é ter um pai? O que é ser filha de um pai? O que é ser filha sem um pai? E, me voltando ao dito Pai Supremo, que é ser filha do infinito?
Que horrível tarefa esta de descobrir que não se sabe a cara do seu pai (esta eu não vi de dentro da barriga), nem seu cheiro nem seus gestos, seu jeito de andar, sua cor, os palavrões que costuma falar, as artimanhas que usa para argumentar.
Enquanto isso, a Terra dá mais uma flutuadinha rumo ao nada, e alguém nasceu, alguém morreu, alguém fez uma cirurgia plástica, alguém fumou maconha, alguém transou, está transando. Daqui pra pouco, pouso novamente neste galho seco da minha árvore genealógica. Sei, mais homens surgirão na minha vida, e, talvez, uma árvore genealógica seja engendrada nas minhas entranhas, num futuro deste presente. E, de novo, eu não saberei o porquê das coisas do mundo: tudo sobre a Terra vai girando e voltando para o mesmo lugar.
*fotografia minha, de uma exposição de peças várias de cultura popular, aqui mais
Minina às 07h02
"Por que o Sol saiu
Por que o seu dente caiu
Por que essa flor se abriu
Por que iremos viajar no verão
Por que aqui o mundo não será cão"
O mundo é bão, Sebastião - Titãs*
Acho que para quem está no Senado ou na Câmara, a vida da população é motivo de divertimento e tenda para o circo que tais instituições armam (o termo instituições poderia estar com letra maíscula, não está por motivos argumentativos mais que óbvios). Tendo em vista o grande estardalhaço que foi, finalmente, a votação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), na boca do povo "imposto do cheque", onde alguns senadors só faltaram cair no murro, percebemos a falta de habilidade do governo em negociar, achando que "a parada" já etava ganha e a falta de planejamento das ações da oposição.
O que me parece é que governar no Brasil não é fazer com que o país, como um todo, se desenvolva, mas sim dançar desengonçadamente num joguete de interesses pontuais, que só favorecem a uns gatos pingados, enquanto o restante da população mendiga, seja às portas das casas ou às portas da Previdência Social. A declaração do senador Jarbas Vasconcelos, representante do PMDB do estado em que moro atualmente, Pernambuco, mostra isso claramente. Perguntado se tinha ponião sobre o porquê do governo Lula perder a briga da CPMF** ele respondeu, calmamente, que "perdeu pelos seus prórios erros" e que "o governo e o presidente Lula estão numa soberba muito grande". Fica claro que, para o tucaninho pernambucano, uma decisão que trata das finanças do país e que acarretará danos que ninguém ainda prevê, se relega a uma pequena vingança particular da oposição com relação ao governo e suas declarações "grosseiras".
Está óbvia a incapacidade de articulação do governo em certos aspectos, mas o país não precisa pagar por isso através das vinganças oposicionistas, que, em vez de ajdar a costruir algo melhor, fazem aumentar o cheiro de enxofre. Mas, me pergunto agora: será que o país não tem mesmo que pagar pela escolha de seus dirigentes e pela inação e larga paciência diante de tantos escândalos? Não estou do lado de nenhuma bandeira partidária, apenas penso que deveríamos cobrar melhores posturas de nossos representates, a partir da participação efetiva nas esferas de decisão. O que mais se fala por aí é em getão participativa, produtiva e o escanbal das ivas positivas, mas, na prática, a repressão e a intolerância são as marcas da administração de qualquer intituição brasileira...
Enquanto isso, a exemplo da minha cachorrinha Lory, dormimos nosso sono, tranquilizados pelas cercas elétricas, até quando não descubram por aí jeito de burlá-las: curtos-circuitos previstos para os próximos capítulos da nossa novela pública, que não sei o quanto tem de mexicana.
- minha cachorrinha Lory, dois meses, em berço esplêndido***
*toda a letra da canção aqui.
**veja a notícia, na íntegra: "Oposição derrota CPMF com o apoio de senadores governistas", por Gabriela Vuerreiro, Folha Online.
***fotinha do meu ábum "vida em garanhuns", no Flickr.
Minina às 19h21
*
Teus olhos
Teus olhos são porões,
Canto fugidio e úmido
Onde a gente se põe
A lamentar o porque
Da vida e do pecado,
Do ficar e do partir.
Meus olhos nos teus-
Não sei explicar essa pausa.
Sei que só pouso em ti assim.
Nas tuas escuridões, espio:
Que vem de lá?
Que não se quebra em mim,
Ao te reparar nos olhos,
É a certeza de me saber
Descalça sobre teu mistério.
Minina

"Ando meio desligado
Eu nem sinto meus pés no chão
Olho e não vejo nada
Eu só penso se você me quer"
Ando Meio Desligado
Arnaldo Baptista/Rita Lee/Sergio Dias, por Mutantes***
*imagem disponível aqui;
**e neste, um conto angustiante, Olhos Negros;
***toda a letra desta canção aqui.
Minina às 14h08