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Inconscientemente tentei afastar minha vida de perto, como se estivesse espantando moscas que voam voam, bate bate na orelha, entra entra no nariz num zuuuuuuuuuuunido... zuuuuuumbido. Lá estava eu, lutando contra a vida, querendo pega-la na maior das surpresas, espalmando o ar, a poeira, rodopiando... E tac!, de repente a vida ali, na minha mão, tão pequenina e pretinha de asas. E eu parei pra obeservar a minha vida na palma da minha mão. Foi difícil não me comover, e eu não consegui manter a neutralidade naquele momento. Porque primeiro quis afastá-la pra bem loge, onde não pudesse ouvir seu som, e depois quis esmagá-la no meu calor? Quem estaria no lugar errado? Eu ou a vida? Será que eu podia me isolar dela? Afinal, onde existe gente existem moscas batendo asas rapidamente.
Eu poderia fazer um gesto nobre, desses que se vê em filmes ou novelas: cuidar com remédios comprovadamente eficazes e depois libertar, com lágrimas no olhos e mãos de mãe, o mosquinha preta da vida que estava ali molhada em meu suor, na palma da minha mão. Mas lembrei que moscas não são bichos dignos de certos cuidados, até porque mosca não é bicho, é inseto. Não é assim que dizem? Então, como eu, tão imensamente maior maior que aquela minha vida poderia ajuda-la a voar de novo e não ficar mal vista pelo vizinho? Será que eu podia realmente fazer alguma coisa para remediar o choque que causei? Era aquilo ali na minha mão, não sabia do seu mundo, não sabia o que lhe curava, não sabia como fazer pra bater suas asas, não sei colar as asas da vida. Tudo isso porque a minha imensidade não permite ver mundinhos tão medíocres como os desse tipo: cascas e mais cascas. Então, deixei-a cair. Levemente flutuando, passeando pelo ar na poeira do viver o mosca foi caindo e tum! No chão. A vassoura deve tê-la levado embora e eu fiquei sem nem mais lembrar da vida que caiu da palma da minha mão.
Moral da história: se não aguentar o peso de um inseto, melhor que deixe-o voando com seu zumbido-peso, pois as asas dele se encarregam de levá-lo para bem loge, mais cedo ou mais tarde, e você nem percebe.
Minina
Imagem: A Máscara, de Marcelo Ricca, no site: 1000imagens
minina às 03h26
Sim, sim ou por que o espanto? Continuo caminhando. Como se fosse uma fluidez infinita, continuo feito nuvem, mil formas e nenhuma forma. São sorrisos, sons, estalar de dedos e idéias. É como se fosse uma melancólica alegria de ver meus dedos dos pés inteiros e os contornos dos caminhos sob os pés. Amanhecem os cabelos e as dúvidas... os cabelos crescem e as dúvidas com eles crescem também. Não quero respostas agora. Estou na paz da dúvida. No sossêgo solitário da interogação: uma paisagem. Deixe-me calma com o que não sei. Sinto que algo eu ganho com tudo isso, com as dúvidas, com as quase verdades, as cores, a infantilidade que me pega de frente ao espelho vez em quando. Convivo, não com o mundo inteiro, mas com o meu mundo eu convivo, saudavelmente.
Engraçado como não consigo dizer das relações que me cercam, das pessoas que me fazem. As pessoas me fazem também, seria bom que soubessem disso. Algumas talvez saibam. Talvez eu exploda um dia com tudo que vi e guardei dessas gentes. Será então a necessidade de dizer, mesmo não sabendo a utilidade. E aí eu direi. Das respostas que encontrei debaixo das pedrinhas e dos grandes sapatos, dentro das velhas roupas e do calor e do frio. Falarei das respostas. E não estarei mais tão tranquila como agora. Não será preciso apenas um cigarro para que eu faça isso, nem somente todo o meu mundo. Pra dizer das respostas precisarei de todos, falarei de todos, o que cada um deixou na minha palavra. E então, talvez eu me complete nesse dia. Fazendo sair de mim tudo o que vi e que vivi.
Quatro lâmpadas
acesas no céu
e o menino caminha
caminha em círculos.
E eu o vejo
tão redondamente irritada
vontade de um sermão na boca
mas aí eu calo
a boca e o círculo
o menino e o céu.
Minina
minina às 04h25